A honestidade do homem público se reflete mais nos actos e muito menos nos factos que, tantas vezes são adulterados pela mão dos que dela se aproveitam.(Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
Textos


De: Silvino Potêncio... Por Terras Altas Transmontanas
 
Dizia-nos o Escritor Russo Leon Tolstoi... “ se queres pintar o universo, começa pela tua Aldeia” e hoje me deu vontade de o seguir aqui, mais uma vez.
Como eu nunca fui grande pintor, nem sequer sei desenhar o “sete” quanto mais pintar o oito, então eu achei por bem trazer-vos aqui uma lembrança inspirada por uma maravilhosa citação do “Ti Antero de Figueiredo”. Isto é para compartilharmos estes serões virtuais, feitos pela maravilha da informática internetiana que, se por um lado agrega um universo de saber global ao conhecimento de cada um,  em apenas alguns segundos, ela acaba por esfacelar a cal e o barro das casas de estuque ou até de pau-a-pique levantadas a esmo para abrigar famílias de outrora,  em constante debandada em massivas levas de tradições a caminho da Emigração.
Antes que me deixe invadir por esta nostalgia de um futuro sempre monótono,  que já se adivinha através dos Iphones, os Ipods, os Mobile devices, os Lap tops de ultima geração!... eu quero registrar e cito este maravilhoso texto ao subir a serra da Minha Aldeia em direção às terras onde se fala Mirandês... iiiii aatãon lá bai;

 (início de citação)  
... A volta de  Mirandela, terra quente e farta, tudo são bíblicos olivais, de poda boleada e arejada. Seguem-se léguas de sobreiros de tinta granítica nas copas e sangrenta nos troncos descortiçados.
Depois soutos de castanheiros que, no Outono, se encherão de tons fulvos e sanguíneos nas suas folhas de latão e cobre.   
Por fim, nas alturas de Rossas, escancara-se um vale de lameiros verdes, de levedas, de regos de água – o sangue da terra – desafogadissimo, entre outeiros de carvalhidos negrais e horizontes fechados por tintas de montanhas azuis, de manchas tênues, distantes, onde o olhar voga nos longes imprecisos das coisas...
Até Bragança --- terras acidentadas e fartas...
- Cães a ladrar, dentes arreganhados, pêlo hirsuto, perseguem num galope doido que os estira em lebres, o automóvel veloz...
- Mulheres Pobres a fazer meia, envoltas em mantéus escuros, passam montadas em burricos lanzudos, sem arreios, em chouto triste.
Uma rude Cruz funerária, sobre um monte de pedras (Padre Nossos!) diz “morte de homem”... casas ao longe... é Vimioso ... e começam as terras de Miranda... 
- vamos conversar em Mirandês... são termos “charros” de espanholado falar:
Bunos diis, amiio Manul.
-olá, tiú Farruco!
Que tês, que vas caçurro?
- Nadia
Que ombra te pesa, ombre?
- Neguma
Como vai aqueilla que sabes?
- Marié?
Si
- Non me hables della!
Porquê?
- Es una ambrulheira, una cotchina, una...
Que me cuntas?! Ombre...  (Antero de Figueiredo)
(fim de citação)

Anos atrás,  quando me aceitaram como escritor no CEN (Cá Estamos Nós) em conversa pessoal com o Amigo, Carlos Leite,  Escritor, Ensaísta, Poeta, Critico Literário, e Presidente Fundador desse Portal de Lusofonia  ele me alertava para o facto de sermos “autores” e não meros “repassadores”!... Tema ao qual  eu contestei e continuo a contestar,  pois não há autoria mais inspiradora do que aquela onde vamos beber no passado. É o sangue das nossas origens telúricas, fundadas na seiva que sai da Terra Mãe que nos viu abrir os olhos pela vez primeira, que nós alimentamos toda a fonte de inspiração pessoal.
Nada me dá maior prazer ao falar das minhas origens, do que pintar com palavras;  as ladeiras e veredas, as árvores e as pedrinhas do caminho, por entre estevas e giestas, arçãs e urzes... e tantas outras obras da natureza que ali permanecem eternamente.  
E o "fnanco" para acender a fogueira p’rós magustos, os ouriços já sem castanhas que servem de borralho ao cepo do freixo derrubado no verão para as ovelhas comerem a rama.
Os olmos da margem do Rio, as vinhas por detrás dos muros de arrimo, cheias de uvas pretas e vermelhas, brancas e mouriscas, moscatéis em forma de cortiço,  e os figos maduros a pingarem mel com abelhas a zunir em volta!...
Não, não!... eu não repasso isto.
​Eu revivo isto em cada detalhe como drágeas de um conhecimento simples mas profundo... um remédio para a Alma... E vou voltar a ler e transcrever isto que me dá saudade mas, também ajuda qualquer um a  mitigar a sua sede depois de anos e anos sem lá poder voltar...
​Agora vos trago aqui um episódio real dos meus tempos de "pastor" :

- O auto rodava veloz, a zunir, como um bezouro gigantesco, espavorindo os bezerros, parando de espanto aos olhos dos pastores ... e isto me traz outra lembrança:
- naquele dia, já à noitinha,  vínhamos do lado Cabeço com 2 rebanhos misturados pela estrada abaixo, ali por alturas da Recta do Couço. E, as canhonas todas misturadas enquanto pastavam já no escurinho vespertino da Primavera, elas se arrastavam com a pança cheia e os úberes também,  pois os cordeiros tinham ficado no bardo à espera para mamarem.
O carro todo preto trazia dois ocupantes,  também vestidos de preto, por sinal pareciam serem Padres,... surgiu de repente na estrada que vem da Trindade e veio por trás de nós, e não esperou os animais saírem do asfalto para a valeta;
- a principio desviou de umas cinco ou seis mas, ao chegar ao meio do rebanho, passou por cima de algumas delas.
-  Oh desgraça!...
Nisto o meu Irmão já prevenido e por uma questão de hábito,  tinha um rebolo de bom tamanho na mão e, nem pestanejou!!!...Atirou-lho contra a porta do carro de tal forma que o amassou e lhe fez um rombo de bom tamanho.
O “Tonho Russo” que ia lá na frente dos animais, ele continuou a chamar aquelas que se assustaram com o carro, e começaram a correr atrás dele no escuro...
Eu devia ter os meus seis ou sete, talvez oito anos, fiquei para trás perto do meu Irmão,  e o condutor desceu do carro e nos acompanhava a pé enquanto o carro ficou lá para trás. --- Queria porque queria saber o nosso nome, de onde éramos, de qual família?... e nós nada!... mouta carrasco!...  
Andados uns quinhentos metros ou mais, o dono do carro voltou para trás para o ir buscar, e nesse entretempo nós conseguimos meter as “canhonas” todas por um caminho estreito na borda da “valeta” e o carro não passou dali... parou na valeta.
Foi quando o condutor se desculpou, passou a usar outra tática...  e disse que tinham-lhe faltado os travões, e por isso não parou antes de atropelar os animais...etc etc.  
Mas quando levou a pedrada na porta do carro, “voismecê” parou logo, caraaago!!!... retrucou-lhe o meu Irmão!...
Nós continuamos ladeira acima, no escuro da noite em direção da Curriça pois já não podíamos levar os animais para a loja do POVO, com receio de que ele, tivésse ido para lá à nossa espera.  
- Uma das “borregas” ficou com uma perna quebrada, mas pusemos-lhe umas talas e dali por um mês já andava bem...

(esta minha foto actualizada mostra o lugar exacto na Recta D'Ossa aonde o carro atropelou as ovelhas - O IP 2 passou por cima e atropelou também a N102 e as terras todas do Barreiro ao Couço)

Recebam um abraço Transmontano e até breve...
Silvino Potêncio
O Home de Caravelas de Mirandela
(original publicado em www.silvinopotencio.net)     

 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 17/01/2014
Alterado em 28/02/2017

Música: Um violino no fado - Desconhecido

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