A cultura de um POVO não pode, não deve NUNCA! se submeter a ideologias politicas ou partidárias!pois que inspiração ou intelecto criativo não se compra nem se se vende, é como o amor, já vem do berço! (Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
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De: Silvino Potêncio (026) – Os Marqueses de Távora! ...
 
Citação... Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio! ( Heráclito) 
 
- A madrugada do dia 13 de Janeiro de 1759 (dia aziago por natureza)  surgiu mais depressa do que de costume. Desde o primeiro cantar do galo,... e, na escuridão do quarto, ela se sentou na beira da cama para rezar a sós!...
- Era a sua última conversa com o Pai do Céu todo poderoso, antes de comparecer, em pessoa, para pedir a benção e a absolvição Divinal.
As nuvens da aurora elevaram-se em castelos fantasmagóricos por entre os telhados da velha – agora em reconstrução total – capital do reino, e a Marquesa escolheu criteriosamente a sua melhor atitude para o encontro com o seu destino!...
Enquanto os carregadores na Nobre Casa dos Távoras de Mirandela aguardavam no pátio, começaram a cair uns aguaceiros glaciais que lhe distraiam a atenção momentânea das coisas terráqueas,  e ela se sentou na Cadeirinha que a transportou até ao Cadafalso que tinha sido construído durante a noite, e por isso ainda estavam húmidos, escorregadias,... as aspas e os tormentos gotejavam sobre as tabuas de pinho fresco. - Às vezes, rajadas de ventos trazidos pela lufada matinal por entre as ruas de acesso ao Mar da Palha em pleno Cais do Tejo Lisboeta, elas  sacudiam ligeiramente os postes do altar de sacrifícios reais da Coroa de Sua Majestade o Rey Dom José I...
-Uns homens da plebe que bebericavam uns goles de aguardente para espantar o frio, soltavam gargalhadas para espraiar o fervor da curiosidade da alma, e mais ainda... para os deixar parar de sonhar, enquanto ti tiritavam de frio iam sacudindo ligeiramente os encerados - enquanto uma falua descarregava barricas de alcatrão e cavacos de lenha, no cais que ficava em frente ao tablado mortal.
Por volta das 6 horas e 42 minutos, ainda mal se vislumbravam os contornos dos beirais dos telhados na contra-luz da aurora, um Esquadrão de Dragões responsáveis pela guarda da Marquesa, eles   exibiam as espadas na cintura,  que cintilavam inquietantes raios de luz temerosa de aparecer para ver o espetáculo que se anunciava terrivelmente fúnebre!...
Horripilento, tenebroso e... numa majestosa nudez de sentimentos de qualquer espécie, a mostrar os rigores da Lei que nasceu para se cumprir ali naquele dia, áquela hora!...
O patear dos cavalos nas pedras do calçamento “pombalino”  ecoava nos ouvidos da Marquesa que surgiu à frente do cortejo,  dentro da Caixa Preta, carregada em ombros de Gentis Pagens trazidos das Colônias e... dela se apeou a Dama Imponente na sua Majestosa Figura de Mulher, Mãe, Avó... que amparada pelos ombros por dois Padres, eles oravam em voz baixa, práticamente num sussurro...
-  Deus tenha piedade de Vossa Alteza Marquesa!...
-  Deus Pai Nosso Todo Poderoso, criador do Céu e da Terra, tende piedade!...
- A Marquesa dispensou o amparo dos dois Padres... apeou-se da Cadeirinha, e ajoelhou no primeiro degrau do Tablado onde já se encontravam em volta os Juízes do crime, alegadamente cometido pela Mulher, (anos mais tarde se concluiu que tudo não passou de uma bem engembrada alcovitice palaciana, perpetrada pelo Oponente do Primeiro Ministro do Reino mais poderoso da época, em bens materiais e não menos espirituais), e enquanto ela rezava ajoelhada, sempre acompanhada de perto pelos dois padres, martelavam-se os postes, aparafusavam-se as rodas... faziam-se os últimos ajustes!... tudo tinha que sair prefeito!
 – A morte não admite falhas!!!... ou é completa ou não é!
 
- Trajava Cetim escuro, fitas nas madeixas de cabelo que lhe caíam pelas temporas, grisalhas, diamantes nas orelhas, e num laço de cabelos, envolta numa capa alvadia roçagante!... ela subiu os degraus com os olhos postos num ponto indefinido do horizonte,  que se vislumbrava além das tranqüilas águas remançosas do Tejo, a beijar a Barra de São Julião.
--- Assim ela tinha sido presa um mês antes, e jamais lhe tinha sido permitido trocar de camisa, nem o lenço do pescoço.
- No alto da escada receberam-na três Algozes que a mandaram fazer um giro no cadafalso, para ser bem reconhecida pela populaça que, a esta altura, já se aproximava... vinda das ruas vizinhas, na sua maioria para ver de perto a acusada de ser Amante do Rei...e de caminho assistir à sua execução macabra.
     Depois mostraram-lhe, por miúdo, os instrumentos que haveriam de, mais tarde, naquele mesmo dia, matar o seu Marido, os seus filhos e o Marido de sua Filha.  - Mostraram-lhe o maço de ferro que haveria de matar-lhe os entes queridos, com pancadas na arcada do peito, as tesouras ou aspas que deveriam quebrar-lhe os ossos das pernas e dos braços,... e explicaram a ela como era que as rodas operavam o garrote que apertava ao desancar o arrocho... então a Marquesa sucumbiu!
 
 - Chorou copiosamente, e pediu que a matassem depressa!!!!!!!...
O algoz mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso e horrorosamente devagar tirou-lhe a capa, que dobrou vagarosamente...
- Pôs-lhe uma venda na cabeça e ao afastar o lenço, a Marquesa ainda reclamou,... não me descomponhas!... antes de inclinar a cabeça que lhe foi decepada de um só golpe!...
*****
O nome da Marquesa Dona Leonor Távora  entrou no meu pensamento pura e simplesmente como a figura da Mulher Portuguesa que, por desígnio de Deus e ordens dos homens na terra, foi executada em praça pública no dia 13 de Janeiro de 1759, logo seguida do Marquês e dos filhos além do Marido e Genro mas,... não vos quero trazer memórias tão tristes e tão injustamente lembradas.
 
Com esta carta pretendo tão só prestar as minhas homenagens, e o mais profundo respeito pela honra dos Marqueses de Távora (Deus seja servido de suas Almas lá onde se encontram...)  àqueles que de alguma forma ainda tenham sangue dos Marqueses!... lá em Caravelas de Mirandela, ou em outro qualquer lugar da Lusofonia eles certamente serão sempre lembrados!...

(in: CRÔNICAS DA EMIGRAÇÃO – CATRAMONZELADAS LITERÁRIAS)
Ensaio de : Silvino Potêncio
Emigrante Transmontano em Natal/Brasil

​Nota do Autor: este texto foi extraído do meu Livro Crónicas da Emigração com o subtítulo de Catramonzeladas Literárias. Entretanto e por causa da relação que há com as minhas origens eu transcrevo também este ensaio no meu Livro Curriças de Caravelas - Trovas Comentadas !

 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 26/04/2015
Alterado em 12/02/2017
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