A cultura de um POVO não pode, não deve NUNCA! se submeter a ideologias politicas ou partidárias!pois que inspiração ou intelecto criativo não se compra nem se se vende, é como o amor, já vem do berço! (Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
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Lembranças do Rio Coina!...

(053) – Lembranças do Rio Coina...
 Por norma nós vemos as coisas não como o são, mas como nós somos! (Tomilson)
- ​Escrevemos isto quando nos referimos às lembranças  das nossas origens
em matéria de apoio à Emigração Portuguesa! ... E eu – confesso -  eu ando um pouco míope últimamente!... mesmo assim lá "bai"...
 
Lisboa,...finais de Novembro de 1975,  algures em um dos quartos do Hotel RITZ,  então  temporáriamente ocupado por "retornados à amada Mãe-Pátria".  Ali, solenemente a discursar e a profetizar prosaicamente,  em ritmo de manifestação de profunda preocupação quanto ao futuro pessoal e  imediato, dizia-me o então recém casado Marido da Fernanda Cristo;
- Olha!, pá... eu cá por mim vou para o Brasil porque lá é que tem a edição do "Tio Patinhas", do "Pato Donald", do "Mickey Mouse", do  "Zé Carioca",.... e como eu gosto de ler tudo que sejam histórias em quadrinhos, talvez me possa sentir melhor por lá!... disse isto, e saiu pela porta fora.
- Pegou um autocarro, e foi lá p'rós lados da "Junqueira" deu o  nome no guichê, como se estivésse às portas de "AUSCHWITZ" , depois de ter feito trânsito em "Treblinka" e eu!...
Nunca mais os vi!... Os Cristo!
- Esses que tinham por apelido o nome de  "Cristo",  (era o sobrenome de alguns Portugueses meus amigos do peito, mesmo nome de Nosso Senhor! Todavia éramos Retornados)
- Actualmente, cada vez que eu escuto a letra da música do gènio chamado Chico Buarque, (sáravá ó grande mestre!..) onde ele relata a história do personagem nascido da relação fugidia do Marinheiro e da Meretriz na beira do cais imaginário,  algures no porto de arrimo dos desamparados da vida eu me lembro desta história! Ele cantava  asiim ;
... eu só sei que ele tinha tatuagem no braço e dourado no dente!....
-  minha mãe se entregou a esse homem perdidamente!,... laiá, laiá!...,
E me voltam assim à lembrança tantas e tantas pessoas que já conheci, de quem fui amigo sincero, apaixonado mesmo e, eu nunca mais as vi!...  
- Ali,  sentado na beira da cama de um hotel de luxo, em pleno centro da capital do reino,  e soçobrando a imagem pelas costas do Primeiro Ministro, o tal todo-poderoso,  Sebastião José de Carvalho e Melo, vulgo Marquês de Pombal, de quem guardo as suas memórias secretíssimas a título de recordação literária,  dos tempos em que fazer politica era: enterrar os mortos e cuidar dos vivos, depois elaborar o que mais tarde seria sacramentado como a melhor organização politica e administrativa da nação que o nosso país jamais teve. 
- Duzentos e vinte anos depois, estava eu ali a  matutar e a discutir com os meus amigos qual seria realmente a minha melhor opção para emigrar, para sair do sufoco?...  seria viajar, emigrar, trabalhar?!, claro!... Ganhar pelo menos o sustento e um trocado para o vicio!... então por telepatia, talvez, lá me vem novamente a prosopopeia do Chico;
(.... meus colegas de bar, ladrões de copo e de cruz, me conhecem sómente pelo nome de menino jesus!!,... laiá, laiá!!!),
Dali da Janela do RITZ eu dei uma última olhada por cima da "Estufa Fria" e para o outro lado do parque Eduardo VII, antes de sair do hotel,  e tomei a direcção do Rossio para seguir para outro hotel no Algarve.
- Por enquanto, naquele dia eu achei que não deveria seguir com os meus Amigos para o Brasil! 
- Atitude esta da qual me arrependi bastante uns quatro ou cinco anos mais tarde pois que quando cheguei ao Brasil por minha conta e ordem, já era tarde.  
Mas pensava eu - Afinal estávamos em casa!...
P'ra quê viajar e atravessar o Atlântico?!...
Logo eu como Transmontano nem sequer sabia nadar direito!
E até porque,  eu mesmo, pessoalmente,  só vi o mar,  já com 13 anos de idade quando comecei a trabalhar em Lisboa. O vi pela primeira vez na minha vida o "Mar da Palha",  ao sair da Estação de Santa Apolónia!,... está ali aquele pedaço de mar que todos os dias nós vemos quando se chega à outra margem do Tejo, ou então seguindo por cima da ponte Vasco da Gama e antes de ver a foz do Rio Coina, lá está o Mar da Palha!
 -  Não sou muito bom em geografia mas diz aqui no meu alfarrábio que o Rio Coina... este da  Mãe-Pátria nasce na Arrábida e  vai desaguar lá mesmo na outra banda do Mar da Palha!
Eu não tinha a minima intenção de me meter nas águas do Rio Coina, e muito menos navegar no mar da palha, por isso lá fiquei mais uns 4 anos. E como é que eu ia me meter a ser Marinheiro, lá na terra do Chico, hein!? - Resisti por mais alguns anos mas a decisão não podia ser adiada. 
- Fui a Vale da Porca, à Terra de outro emigrante luso mais famoso do que eu, não para ir falar com ele,  mas falei isso sim!,  com o meu rico Santo Ambrósio!,... e este me disse outro poema do Mestre Carioca;
 ... ai esta terra ainda vai tornar-se um imenso Portugal!... ainda vai cumprir seu ideal!... será?
Desta feita, os meus primeiros cinco anos de Brasil foram passados em alto mar.
- Tive a grande satisfação de assistir a "pororoca" e imaginar a boca do rio Douro desaguar na ilha de Marajó!         
 -  Ainda não encontrei o tal "mar de rosas" que os Emigrantes tanto falavam décadas atrás e duvido até que o "Leon Uris" não tenha surripiado algumas histórias de velhos Judeus ancestrais nossos, quiçá, habitantes  das terras altas da Guarda ou de Belmonte para enredar a sua história da "diáspora dos Judeus" que ele entitulou de "Exodus"!
- Dias atrás, antes de escrever esta Catramonzelada, eu recebi novas da Capital do Reino, (esse que tem o tal povo que lava no rio),  de gente amiga que não emigrou!
Gente que jamais abandonou as vistas vizinhas do tal rio coina da Mãe-Pátria, mas que hoje, passado o desencanto dos sons da música, em alegoria ao tema de liberdade futurística ... in the year twenty five, twenty five! (concorrente directo na época do "25 de abril em Portugal") esses amigos me dizem;
"....As tuas desilusões são as de muitos a quem um dia lhes foi prometido um futuro! Claro!,  desde que trabalhassem com vontade e honestidade.
Só que isso não foi nunca  assim.
Também por cá andamos à espera que dias melhores venham!... mas o túnel é tão grande que nem ponto de luz se vê do outro lado!
"O acordo que fiz com o Estado Português há trinta e seis anos, até hoje, porque muitos se governaram à "grande e à francesa", não é mais respeitado.
Refiro-me aqui ao meu direito de reforma. Este ano podia reformar-me e, pela forças das circunstâncias, só o poderei fazer quando tiver 65 anos. O que equivale a dizer que tenho que andar mais 10 anos... Fazem-se planos e custa, de um dia para o outro, ver ir tudo por àgua abaixo em direção ao Mar da Palha, depois de passar pelo Rio Coina!

Nota do Autor: ​
O rio Coina ou ribeira de Coina nasce no Parque Natural da Arrábida, na povoação de Parral e desagua num braço do rio Tejo junto ao Barreiro, a jusante de Coina. No seu percurso de cerca de 25 km passa pela localidade de Quinta do Conde, onde recebe a ribeira de Azeitão.
Neste momento, o rio encontra-se em muito mau estado devido à poluição existente nas suas margens e na própria água.
O rio de Coina que sempre foi um elemento natural importante no desenvolvimento desta Vila, foi ainda associado à construção histórica da época dos descobrimentos, construíram-se nas suas margens Caravelas e Naus. Nessa época ao Rio Coina era navegável, consta até que todos os dias saíam de Coina vários barcos carregados de hortaliças e vinhos, como por exemplo o Moscatel, com destino ao mercado de Lisboa. O rio servia também por vezes à rainha D. Constança esposa de D. Pedro I no transporte de barco para a sua residência em Azeitão.
Atualmente a sua foz ainda é navegável. Aí e, na sua margem direita situa-se a Estação Fluvial do Barreiro, de onde partem e chegam as embarcações Catamarans, de, e para Lisboa (Terreiro do Paço).
Na verdade esta minha crônica foi elaborada com o espirito na vaga lembrança das Crônicas de Angola (das muitas que por lá ficaram)  porém a nostalgia me impediu de mencionar tal recordação embutida neste texto.

 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 27/05/2015
Alterado em 18/03/2016
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