A índole de cada um de nós (BOA OU MÁ) já vem no sangue. O ambiente onde se vive, é a moldura que os homens lhe fazem ao longo do tempo! (Silvino Potêncio)
Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
O tempo é ouro!... eu agradeço a todos por o dividirem aqui comigo! (Silvino Potêncio)
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
FotosFotos
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
LinksLinks
Textos





A geração à rasca

 Alguns anos atrás eu recebi através de email uma Carta de um Conterrâneo cujo nome se me perde na imensidão de textos que eu tenho reunidos neste volume que eu entitulei de "Cartas Literárias" e que vos vou revelando quando me sobra tempo aqui no meu espaço literário. Depois  e daqui para diante, cada leitor visitante as divulga do jeito que melhor lhe aprouver, se for do interesse de cada um.
Cada frase, cada palavra desta carta me traz de volta a um passado ainda não muito distante. São pensamentos que trazemos na Alma Emigrante e muitos de vós vão recordar certamente...  


(início de citação)
A GERAÇÃO ENRASCADA
 
O grande homem é aquele que não perdeu a candura da sua infância…
Pertenço a uma geração que teve de se desenrascar.
 
Nasci ao som do rufar dos tambores da 2ª Guerra Mundial. Os clarins e as sirenes faziam o toque de à rasca, anunciando mais um bombardeamento.
 
A Santa da minha Mãe, pariu-me de cócoras. Quando se sentiu à rasca, muniu-se da tesoura e do baraço e fez tudo sozinha. Chegou por casualidade uma vizinha e ajudou aos últimos preparativos, talvez um caldo de galinha velha, que era o prémio de qualquer parturiente.
Hoje, as que se rotulam de à rasca têm seis meses de licença de parto.
Essa vizinha, que durou cento e tal anos, passou a vida a contar-me isto, vezes sem conta.
Aos miúdos, faziam uns calções com uma abertura na retaguarda, e, quando estivessem à rasca, baixavam-se, o calção abria e fazia-se em escape livre e, andava sempre arejado.
 
Aos dezoito anos, ainda o comboio passava em Mirandela e tive o azar de fazer cargas e descargas dos vagões para os camiões.
Os adubos vinham em sacos de 100 kg, as pernas tremiam mas tinha que me desenrascar. Os mais velhos sabem do que falo, o trabalho era duro incluindo as segadas, mas… fazia-se tudo a cantar.
 
A mesma geração, fez as três frentes da guerra colonial, morreram nove mil e quinze mil ficaram mutilados e a cair aos bocados, chamam-lhes Heróis, mas dizem desenrasquem-se.
 
O 25 de Abril foi feito por essa mesma geração, bons líderes, povo unido e desenrascaram-se muito bem.
 
Por fim, a debandada da emigração para toda a Europa, atravessando montes e vales íamos chegando a todo o lado. Vivíamos em contentores e barracas, o tacho onde se lavavam as batatas era o mesmo para se lavar o nariz, mas não nos desenrascamos nada mal.
 
Depois veio a geração rasca. Drogas, rendimentos mínimos e vergonha de trabalhar. Agora, dizem ser a geração à rasca, querem ser todos Doutores, arrastam-se anos à volta dos cursos, os parques universitários estão cheios de carros de luxo, ficam por casa dos Pais até aos trintas e “quem aos vinte não é, aos trinta não tem, aos quarenta já não é ninguém”.
 
São uns enrascadinhos, não querem assumir a responsabilidade de uma família, vagueiam de noite, dormem de manhã e a Mãe chama-os para almoçar. O Pai vai recheando a conta, porque um Pai é um banco proporcionado pela natureza.
 
Eu não quero medir tudo pela mesma rasa e acredito muito na juventude, aconselho-os a que se caírem sete vezes se levantem oito, porque o Governo está à rasca, a oposição está enrascada e a juventude não se desenrasca.
Os que cantam, Homens da Luta, é uma luta sem comandantes e o povo vencido jamais será unido.
Façam pela vida… E, não estejam à espera que o mar arda, para comer peixe grelhado!...
(fim de citação)
 
Depois de eu ter lido aqui várias vezes este texto, eu fico a pensar quão parecidas situações e circunstâncias este autor e Conterrâneo (que eu não conheço!) tem comigo mesmo!
- Saí de Caravelas de Mirandela aos 13 anos de idade e fui trabalhar em Lisboa numa mercearia e pastelaria em Odivelas. Dali escapei para uma outra mercearia na Rua Filipa de Vilhena aonde 50 anos depois ainda fui lá encontrar o meu Velho Amigo e Patrão Senhor Alberto – esta foi uma das minhas maiores alegrias tanto pela distância de 50 anos como e principalmente pelos motivos e circunstâncias que me levaram até lá, mas... isso eu já relatei em outra crônicas, outras cartas, outras memórias que muito nos ajudam a reviver tudo o que fomos. Sim!... porque realmente recordar é viver!... e eu aprendi na prática a desenrascar-me.
Por isso vos deixo apenas mais este meu pensamento:

... eu não tenho curso superior,
Nem entrei em nenhuma faculdade!,
Porém hoje com a minha idade,
Todo o dia eu me sinto um Doutor
Porque a vida assim o quiz...,
Fazer de mim o próprio Doutor Juiz!

Silvino Potêncio
Emigrante Transmontano em Natal/Brasil
(Janeiro 2017)     


 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 29/01/2017
Alterado em 29/01/2017

Música: Um violino no fado - Desconhecido

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras
Textos da Minha Autoria podem ser EVENTUALMENTE transcritos pelos Leitores, e/ou outros Autores interessados na sua divulgação, desde que observadas as Regras dos Direitos Autorais, incluindo o crédito respectivo! - Os originais desses textos devem ser solicitados por escrito, pelos interessados, diretamente ao Autor via email: sspotencio@yahoo.com.br e com a devida indicação e endereço de email do Remetente - Leitor interessado. Muito Obrigado pela visita e voltem sempre! Silvino Potêncio Emigrante Transmontano em Natal/Brasil