A honestidade do homem público se reflete mais nos actos e muito menos nos factos que, tantas vezes são adulterados pela mão dos que dela se aproveitam.(Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
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De Alfandega da Fé, ao Colonato da Cela…
 
No início dos anos 60 do século XX o Governo de Portugal abriu um programa para incentivar a Colonização dos territórios ultramarinos.
Com isso,  era a intenção do Governo aliviar as dificuldades da população rural do interior de Portugal Ibérico e aumentar a presença populacional nas Colônias, principalmente Angola, Moçambique e Guiné, onde havia muito terreno para se cultivar e gerar riqueza.
Os responsáveis pelo cadastramento das famílias voluntárias para irem para as Colônias era feito na Camara Municipal do Concelho onde residissem, ou onde fosse a origem de um dos Conjuges.
Como a Ti Julieta era natural dos Colmeais, lá fomos todos no mesmo dia para a Camara de Alfandega da Fé, e por isso vos deixo aqui a  minha crônica alusiva a essa viagem que,  por certo, foi a ultima vez em vida, que se reuniram os 8 filhos do Ti Zé Artur;  todos juntos num mesmo lugar nas escadarias da Camara Municipal de Alfândega da Fé!.
 
Uma vez que a nossa família tinha também origem nesta Aldeia situada na encosta da Serra de Bornes, em um ponto mais elevado e já pertencendo ao Concelho de Alfandega da Fé, achamos por bem incluir aqui um capitulo especial pela influencia que teve na nossa formação pessoal nascido em Trás Os Montes.
E este foi um dos episódios mais marcantes que aqui deixamos na memória, a quem interessar possa...
 
- Aldeia dos Colmeais, Concelho de Alfândega da Fé; na primavera de 1960 em frente aos Paços do Concelho e da Câmara Municipal,... estávamos ali todos!
A Familia dos Potêncios de Caravelas: Pai e Mãe com os oito filhos.
 -  E esta foi a única vez na vida, de minhas  lembranças,  em que os “Potêncios” do Ti Zé Artur e da Ti Julheta, - 8 filhos e mais o casal - jamais estivéramos reunidos num mesmo lugar todos juntos sem ser na nossa velha casa em Caravelas e mesmo assim depois de adultos era muito raro sentarmo-nos todos a volta da mesa da Sal;
-  éramos uma fonte de  trabalho considerável (dizia o encarregado do angariamento de emigrantes internos prontos e aptos para seguirem para Angola).
 - Estávamos todos ali, tal qual um verdadeiro “Egas Moniz” (não o do prémio Nobel, mas o da corda no pescoço!...E o meu Pai estava ali às portas do castelo do "rei estrangeiro" (vulgo Camara Municipal do Concelho!...) para pedir terras para trabalhar, e nós nos prostramos em silêncio debaixo das Arcadas da Camara Municipal à espera!...
– Nós queríamos emigrar e fazer parte do programa de povoamento pacífico então engendrado e implantado parcialmente pelo governo da época, como forma de lançar as bases locais da tal imaginária “commonwealth” Lusitana!,...quiçás imaginada já pelo então seguidor do Velho Botas, o Ti Salazar (data vênia).
Assim e pelas nossas vidas,  quem sabe,  nós teríamos direito a uns míseros hectares de terra no Colonato da Cela, local alcançado depois de subir a ladeira da Quibala em Angola!
...de qualquer forma era bem melhor do que o  “palmo de terra” que tínhamos na encosta do “vale das chouras” que nem era lavrado, era só cavado porque lá não cabia sequer a charrua com uma “tremonzela” atrelada a uma junta de bois!... quando muito uma parelha de Burros que o Ti Zé Artur tinha naquele tempo.
 
- Lá de dentro da Camara veio um funcionário e chamou:
-Ó Ti Zé Artur!,...
 (Deus é servido por ele já desde o dia das mentiras do ano de 1969! ---  a benção Pai!! A benção Pai meu e Pai Eterno!,.... meu querido Pai, meu Velho carpinteiro de Caravelas,  como o foi o Nosso Senhor!...)
-  Ó Ti Zé Artur!,... olhe,  já os não posso a-registrar (*) aqui no Concelho d’Alfândiga home.
- Era p’ra “voismecês” virem cá in  janeiro e já estemos na primabera!...
--  peis é!, o mais novo andava lá em Macedo a estudar, o outro andava c’ôas cabritas e os borregos!, ---
- - - ou tenho estado doente e prontos!,... olhe só hoje é que os  pudemos bir cá a trazer a todos os filhos que  temos, que são OITO, os outros 3 Deus não permitiu que “xigassem” cá!... ataão num bamos p’ra Angola!!??
Não!, não podem ir! Só se forem por Mirandela  !...
-  Pode ser que lá inda tenha baga!...
-Peis é home, beja lá,  que o regedor me disse que lá tem muita terra boa p’ra trabalhar, e olhe!,... fale aí c’o xenhor presidente da “cambra”!...
 – Nós inté semos parentes distantes por parte do meu Avô de Vilar do Monte do Sr Ministro Adriano Moreira (saravá professor doutor onde estiver!...) aquele qu’é o doutor lá de Grijó de Bal benfeito!,.. olhe qu’ele inté esteve lá na terra no ano passado e dezia que eu com estes meus rapazes todos,  o milhor era ir p’ra lá p’ró tal do “ultramário”!... qu’ele inté era ministro lá, etc e tal e coisa...
 
...??? e assim como fomos a Alfandega da Fé, de lá viémos pelos caminhos do Alto  da Serra, das Bouças passámos pelos Colmeais e enfim viémos de volta a Caravelas.
 
Não teve jeito!... o Ti Zé Artur se foi para sempre!, sem nunca poder emigrar e ir a Angola a ver as terras dos meus irmãos!, que as tinham lá pois nós fomos uns quatro  mais tarde emigrados para Angola, com recursos próprios e sem esmola nenhuma dos ministros da capital!
E hoje também já o não podemos reclamar, há documentos das terras mas não as queremos mais!,...pra quê?
 NADA!.... nós não queremos de lá mais nada, eu pelo menos!... não espero nada! nem de ministros nem de ministérios!!!
-- Nous en passée (de fininho, como dizem os emigrantes “avecs”)!
Voltamos p’ra casa e no caminho fizémos uma parada nos Colmeais!  - (Aldeia onde, na encosta da serra de Bornes, a Minha Mãe nasceu e também já lá está, na Graça de Deus! ( a benção Mãe!).
Oh, vã tentativa de emprego!
- Ó Gente pobre e emigrante que só sabe sonhar!,... e eu sonhava lá no alto da Serra de Bornes, ou na varanda da casa da Tia Berta, que tinha sempre a porta aberta!... como boa tradição da terra... entrávamos pela porta debaixo como quem vinha da fonte e saíamos pela porta de cima que dava para o caminho das Bouças e para o Alto da Serra.
Toda a vez que eu ia aos Colmeais,  eu ficava ali a olhar da Varanda do nosso Tio Francisco para um Pombal que ficava do outro lado da Aldeia e me admirava como é que as pombas iam e vinham com toda a liberdade e elas sabiam a volta ao ninho sem nunca se enganarem!?...
Havia outros pombais mas elas sabiam sempre qual era o delas e eu sonhava...
Eu sonhava enquanto escutava o canto triste e monótonamente Transmontano, das Fiadeiras do linho curtido no Ribeiro da Fonte Fria ou no Ribeiro do Cóvo para depois ser fiado e entrançado nos teares  do Povo,  antes de levar as mantas a Mirandela por onde se ia ao atravessar o "Vale da Parada" que na realidade nem é um Vale e sim um planalto que fica sobranceiro a Mirandela, logo acima da Ladeira da Freixedinha!
 
Nota do Autor: Texto parcial extraído e revisado do Meu Livro de Crônicas da Emigração!
 
(in; “CURRIÇAS DE CARAVELAS – TROVAS COMENTADAS”)

De: Silvino Potêncio – Emigrante Transmontano em Natal/Brasil  
 
 

 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 09/06/2018

Música: Um violino no fado - Desconhecido

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