A cultura de um POVO não pode, não deve NUNCA!...se submeter a ideologias políticas ou partidárias! e muito menos financeiras ou económicas, pois que inspiração ou intelecto não se compra nem se vende! - É como o amor, já vem do berço! (Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
Textos


        
O meu primeiro emprego em Odivelas (13 anos de idade)...

Histórias  (Tristes!...) de Emigrantes e Retornados... Esta é a minha!
 
(continuação...)
 
Depois de ter sido aprovado no Exame de Admissão aos Liceus em Bragança, eu ganhei uma espécie de Bolsa de Estudo no Colégio Trindade Coelho em Macedo de Cavaleiros,  a qual durou apenas 2 anos pois os Patrões do meu Velho Pai fecharam os cordões à bolsa (de estudo) e eu parei de estudar.
 
Por isso, na Primavera seguinte, com 13 anos de idade o Meu Pai me “despachou” no Comboio da Linha do Douro  - Estação do Pocinho – para Lisboa, aonde eu cheguei no dia seguinte de manhã à Estação de Santa Apolônia.
Durante o primeiro ano eu trabalhei mas não recebi “ordenado”!... o meu primeiro  Patrão, dono da Mercearia e Pastelaria em Odivelas, ele mantinha 4 empregados abaixo dos 20 anos de idade e o sistema era “pegar ou largar”!...
 
Eu era o mais novo e na prática trabalhava pela comida, dormida e mais um par de calças para seis meses e um “Jaleco” de Marçano  que usava de Domingo a Domingo. - Um Ex colega deste infortúnio havia sido despedido e me avisou que o Senhor Alberto da Mercearia na Felipa de Vilhena precisava de um empregado e... num belo Domingo, sem dizer nada a ninguém, eu peguei a minha roupita que enfiei numa “Saquita de Pano”, subi a Calçada de Carriche depois de passar em frente do Senhor Roubado para subir ao Lumiar, Campo Grande, Campo Pequeno,e lá fui.
 
Muitas Freguesas eram as “Madames” da área do Saldanha, Campo Pequeno, até à Alameda... a maioria que moravam nos andares mais altos dos prédios, elas subiam no Elevador e eu carregava os “cabazes” pela escada de serviço.  Parava no primeiro andar encostado ao corrimão para descansar pois o cesto às vezes era pesado, subia ao segundo andar e parava de novo! Às vezes pediam uma caixa de fósforos e pagavam com uma nota de 20$00 e eu tinha que descer e subir duas vezes a correr para ir levar o cabaz à outra freguesa! Eu chorava, reclamava com elas ... mas os porteiros tal qual uns “Leões de Chácara”  eram irrevogáveis!... sobe pela escada de serviço, senão vou ter que te despedir, dizia o Ti Alberto o tempo todo na saída da Mercearia.
(Imaginem a minha felicidade pessoal quando o fui encontrar 50 anos depois,  ainda na activa em volta do “caixa” da Mercearia da Filipa de Vilhena,  e já com 80 e tantos anos, Viúvo... sem Filhos,… lá estava ele! -  Foi uma das maiores alegrias na minha visita a Portugal em 2016!).
 
Por ironia do destino, eu e alguns dos meus Irmãos (de todos, eu sou o mais novo) nós tivemos que “remar contra a maré” logo no início dos anos “60”! E, depois de termos perdido a viagem para Angola para a Familia toida de uma vez! Viagem esta que eu já relatei com detalhes numa das minhas crônicas “De Alfandega da Fé ao Colonato da Cela”! foi aí que,  enquanto outros Portugueses voltavam de Angola, de Moçambique, da Guiné, de Cabo Verde em virtude da Guerra de Guerrilha ali instalada pelo Terrorismo, nós fomos trabalhar em Angola, na Roça dos mesmos Patrões que o meu Pai tinha lá na Aldeia como Feitor. Facto este que nos transformou em Emigrantes na própria terra, e mais tarde fomos promovidos ao “status” social de “RETORNADOS”!...  
No ano de 1975 em pleno auge da revolução interna de Angola,  eu tive direito a umas Férias da outra Firma onde eu trabalhei por quase 11 anos em Angola, e fui então visitar a Minha Aldeia quase 15 anos depois de eu ter sido “Despachado” na Estação do Pocinho.
 
Deixei o meu Velho e inolvidável N.S.U. em Luanda com o Meu Amigo “Nelito” e em troca, ele me emprestou o Subaru dele,  que ele já tinha levado para Portugal, e foi quando eu pude ver de perto o sentimento de solidariedade daqueles que nunca foram além da horta aonde colhiam umas couvitas e uns feijões, batatas, e umas pousadas de centeio para fazer pão.
-  No inverno matava-se o “Réco” para comer a carne no resto do ano! e... a carne de  “bitela” era só quando o “Rei fazia anos”! mas... como naquele tempo, já nem havia nem “Rei nem Roque”,  então tinha-se aquele velho costume de “palitar os dentes” para disfarçar o resto do jantar, geralmente era só uma sopita de batata e cebola e um pingo de azeite “para dar o gosto”, mas... voltemos ao Verão de 1975!
 
Depois de ter ido visitar a Familia na França, voltei a Portugal e capotei o carro do meu Amigo umas 2 vezes na Estrada entre Vila Verdinho e Mirandela!...
Fiquei portanto retido lá na Aldeia como “Turista” durante uns 2 meses a mais que o previsto. - Consertei o carro, gastei todo o meu dinheiro, e voltei a Luanda porque a viagem de volta já estava paga.
 
Aos trancos e barrancos sobrevivemos em Luanda até quase ao final de Outubro desse triste Verão de 1975!... Eu não queria voltar pelo que eu tinha visto em Portugal, mas finalmente tivemos que voltar para  Portugal – em última instância “para salvar a pele”... e aí a desgraça continuou!
– Honestamente vos digo, eu acho que ainda não acabou, mesmo depois de mais de 40 e tantos anos que já lá vão!
O único bem que consegui levar foi o meu Velho N.S.U.  o qual, durante 2 anos intermináveis, me levava de Norte A sul em busca de algum trabalho,  e foi quando mais uma vez fiquei de cabeça para baixo, literalmente falando,  dentro dele na Estrada entre  Guimarães e Braga, por causa de uma emboscada que havia sido feita para a Comitiva do Senhor General Ramalho Eanes,  que andava em campanha para Presidente da Républica na época ( O Meu Amigo Coronel Henrique Lacerda testemunhou esse episódio pois ele Acompanhava o Senor General e tinham passado lá com a comitiva no dia anterior à data do meu acidente que, mais uma vez capotei, subi a ribanceira e fiquei com as 4 rodas para cima!... Lá fora as pessoas aflitas para me ajudar a sair, e eu dentro do carro, tejadilho cheio de vidros, à procura do meu “ronson” para acender um cigarrito).
 
Os “esquerdalhos” vulgo revolucionários do “Abril Mentiras Mil” eles espalharam óleo na estrada – era empedrada – e no dia seguinte eu não consegui fazer a curva.
- Desta vez, a desgraça  já foi com o meu N.S.U. que estava sem seguro, claro!  E lá se foi toda a minha economia que eu tinha guardado para enfrentar as  “trincheiras” do Campo de Concentração do “Aulgarveschwitz” com carimbo do I.A.R.N.
Ali eramos que nem o Povo Judeu emcaminhado a Auschwitz,  DACHAU ou Trebelinka, por isso eu apelidei o hotel de luxo, uma ilusão, um incentivo à preguiça e ao esquecimento unipessoal.
Geralmente a informação no hotel era bem simples; não tem carimbo do IARN ?!... pode ir morrer longe para não cheirar mal.
Que tragédia!, apenas um ano se tinha passado desde a minha visita a Tras Os Montes como Emigrante Turista vindo de Angola, e já não havia mais nada!... nem beijinhos e nem abraços; nem de amigos ou conhecidos e quantas vezes!, nem mesmo de muitos dos parentes. Coisa que hoje é muito mais comum do que se pensa.
 - Uma dessas pessoas tinha por hábito jogar a indirecta para mim... “o hóspede e o carneiro, aos 3 dias bota cheiro”!
 
Ainda me arrisquei a fazer uma outra viagem com o N.S.U. até França, mas a sorte me perseguiu mesmo além fronteiras.
Quebrei o semi-eixo na França. E na volta para o “Aulgarveschwitz” eu quebrei o pára-brisas em San Sebastian ao cruzar com um “Pegaso” na Espanha, e antes de chegar a Ciudad Rodrigo,  lá se foi a caixa de marchas do velho N.S.U.  por causa do pára-brisas quebrado, frio, chuva, fiz tudo em segunda ou terceira.
Mas, como se diz no Brasil... Deus é bom!
 
Era pleno Inverno de 1977,  e de madrugada acendemos uma fogueira na berma da estrada, para espantar o frio. Por incrível que pareça consegui levar o carro até Lisboa em cima de um Reboque da Europe Assistance de graça! Cheguei à Oficina em Lisboa em Olaias nos arredores da Alameda sem gastar nada!, até porque eu não tinha um tostão furado comigo e o meu Companheiro de Viagem, o saudoso Mika, (falecido no Alentejo uns meses depois em outro acidente) ele também não!... dormimos 2 dias dentro do carro em cima do Reboque da Europe Assistance em Rio Maior...  
Durante quase 4 anos eu Resisti o quanto pude para continuar a ser “Retornado” em Portugal, até porque só se é  retornado quando se volta aonde já se esteve, ou aonde nascemos!, porém a sina da Emigração me Fez Sina (não confundir com fascina!...) e uns 16 anos depois de sair da Aldeia eu me tornei Emigrante no Brasil a partir do ano de 1979 em definitivo.
Numa das minhas Crônicas da Emigração, eu registrei os detalhes de alguns “Retornados” da Minha Aldeia, mas, por ora, fico por aqui!...
Recebam pois um Abraço Transmontano e até breve, se Deus quisér!
Silvino Dos Santos Potêncio
Emigrante Transmontano em Natal/Brasil
Ex Retornado + Ex Combatente


    
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 25/07/2018
Alterado em 25/07/2018

Música: fadoportugues - Desconhecido

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