A cultura de um POVO não pode, não deve NUNCA!...se submeter a ideologias políticas ou partidárias! e muito menos financeiras ou económicas, pois que inspiração ou intelecto não se compra nem se vende! - É como o amor, já vem do berço! (Silvino Potêncio)
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Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
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          O IP2 enroscado na Estrada Velha desde Bragança até ao Pocinho!... 


De: Silvino Potêncio/Natal-Brasil > A MORTE DE UMA ILUSÃO...
 
<< Sofre-se mais vezes pela morte de uma ilusão do que pela perda de uma realização! (Augier)>>
 
Falar é fácil, dificil é realizar!... são estas as palavras que muitas vezes escutamos de quem não consegue realizar algo de seu, ou para o qual tenha disso sido incumbido.
- Escrever é nada mais, nada menos, do que exteriorizar o que nos vai dentro do pensamento, apenas com a diferença de que os pensamentos feitos em palavras, essas leva-as o vento!, enquanto que os pensamentos escritos eles se perenizam, se divulgam e são aceitos ou recusados dependendo de cada leitor. 
Nós, os emigrantes do tempo do " irmos de Assalto à França", ... à Alemanha, ao Luxemburgo, e mais tarde aos demais países que nos acolheram depois da crise dos anos "se senta" aí aonde houvér lugar para isso, à espera dos anos "se tenta"… arranjar emprego, onde for possível, nós acabámos por nos acostumar com a ideia da redescoberta das nossas tradições seculares; seguir o caminho dos nossos ancestrais caminhos do mar e escutar a voz do poeta porque "navegar é preciso"!...
 
Restabelecidas que foram as liberdades democráticas no velho "recto ângulo" da europa, lá onde o mar começa e a terra termina sempre em chamas,... sejam elas alimentadas pelo sonho de um dia voltar, ou até mesmo pelos descasos administrativos onde só se previne o que já é,  e está irremediávelmente perdido, nós sofremos a mesma força da impotência no combate à estupidez dos homens que a natureza não perdoa. 
- Sabemos todos que as condições climáticas são novas, são diferentes, são mais inclementes do que nunca, todavia outros países as sofrem de igual forma, e nem por isso são castigados como o nosso velho torrão natal.
- Eu até nem lhe chamaria mais por este nome, ao palmo de terra que lá deixei, mas sim um pequeno e minúsculo pedaço de carvão, depois de tantas vezes que a chama já lhe lambeu as berças.      
- Chegamos ao mês das "vacanças" e com isso trazemos na alma o temor da incerteza!,...
Relatos de acidentes mortais, outros não menos prejudiciais ocupam as "pantallas" dos televisores, os écrans dos monitores e mais sofisticadamente - agora modernamente proliferados e pr'a frentex - são os visores dos telemóveis!
... estálá!!???
-Alá esteje cuntigo tumbém!...
ó pá, ou estou aqui na santa terrinha, pá... 
- tu vistes-me!?... e tu onde estás?
- parece qu'és burro pá!,.. aatão num estás a olhar p'ro monitor?
- ou!?,... burro ou!?, hein...cmu’quera!
-  bem ou estou, estou sim!, pá, mas é que... épá, peraíiiii......
Ahhhhtchibum!!!! Catrapum!!!!!! shrrrrriiimmmm,.... pum, catrapum!!!! e por aí foi ladeira abaixo, até bater n'ua fraga de bico arrebitado! 
- Ai minha Nossa Senhora!,
 Ai mou Jesus dos Passos,
Ai Nossa Senhora da Assunção lá da aldeia de Carvalho D'Egas...e Vilas Boas… ai, ai, ai!...
- Nisto "xigou" o sô guarda,  que não toca na banda mas veste o modelo GNR,...
- Olhou, viu, e em primeiro lugar bateu a continência, enquanto o infractor continuava lá dentro da viatura toda escambalhada!...
-  que pena, era tão bonito, mesmo comprado na loja "d'occasion"!...
- Ai minha Nossa Senhora!, ...
- Ai mou Jasus dos Passos, (deixa-me gemer mais um pouquinho a ver se o home esquece a missão de combate do próximo mês lá nos "balcãs"…)
- Ai Nossa Senhora da Assunção!,...Senhora, ajuda-me aqui. 
Oh minha Nossa Senhora do Amparo lá de Mirandela, valei-me aqui que eu nunca tinha tido um acidente, foi a primeira vez, acredite ó xô guarda!,...
Bô!... aatãon “ió do ano passado” caraaaago!?
- Tá bem, tá bem... voismecê tem dinheiro consigo?
Aatão ó Xô guarda!,... u qué qu'é  isso home de Dous!?...
Ou tou aqui todo cubrado da espinha e voismecê inda me pergunta se tenho dinheiro!?...
-  peis é claro que tenho, mas purquê? 
 
- Tá no regulamento!...
A "coima" paga à vista e no acto da infracção é mais barata, sabia?  
....Oh minha Nossa Senhora do Amparo!,... aatãon é isso é!!!?
A estrada está mal construída.
- Os "gajos" da Junta meteram a mão no orçamento e surripiaram uns trocados para irem de férias lá nas ilhas "sei... Cheles" e nós aqui é que pagamos essa tal de "coima"!?  
- u qué qu'é  isso home de Dous!?...  
Olhe, "voismecê" tenha calma! e vá lá… mostre-me logo a carteira porque senão eu posso até…  "en cu adrá-lo"  (uma forma do verbo "encuadrar" do português arcaico-douroiense-mirandelense-emigrantês- avec)mas é na na infracção anterior que é muito mais grave, e ainda fica sem carta, sem email e até sem fax para avisar aos parentes.
- Bô!... u qué qu'é  isso home de Dous!?...  
"voismecê" vinha a falar ao telemóvel e quando olhou de novo p'ra estrada "voismecê" despencou pela ribanceira abaixo, foi mais depressa do que se faz a troca de pneus da "ferrari" com a testa rosa como a sua!...
Afinal,  quer pagar a coima, ou não!?...
- "voismecê" tá doido. 
- u qué qu'é  isso home de Dous!?...
Bô,  eu não falei nada no telemóvel.
Eu só peguei nele para tirar uma fotografia a mostrar que eu estava aqui na “santa terrinha”, caraaaagopô! 
  --- "voismecê" já foi emigrante,  sabe cumé qui é home, né!?.
- Temos que dizer p'rós amigos por onde "andemos", etc e tal e coisa.
Olhe, "voismecê" tenha calma.
Ou paga estas duas que já estão registradas aqui no meu PC (de bordo) ou quer que eu lhe aplique a "coima" anterior?!.
- u qué qu'é  isso home de Dous!?... qual é a coima anterior?
- "voismecê" tá lembrado da velocidade que vinha antes de se despistar, ou seja antes de se "desestradar" ou melhor dizendo actualmente, antes de se "desitinerar" (entenda-se: aquele que sai do "Itinerário Preferencial")  aqui pola ribanceira abaixo?... 
- e a conversa continuou enquanto a gasolina espalhada pela área foi se alastrando...  
Ó sô guarda!, qual é aatãon a "coima" anterior à anterior?
- Porquê?
- Eu nunca fico a dever nada a ninguém, muito menos ao Estado lastimável em que estamos.
- Aqui nos seus documentos consta que "voismecê" nasceu no dia primeiro de abril de mil novecentos e... olhe!,
 - eu acho que a sua "coima" anterior ela foi cometida mais ou menos uns nove meses antes desta data! - quer pagar ou não?  
Deixe isso p'ra lá.
 - Afinal nós já estamos mesmo no fundo poço, e acho até que estas chamas em volta de nós dois aqui a conversar sobre coimas, etc e tal e coisa…  elas
devem ser alguma coisa parecida com aquilo que se pode chamar de inferno na terra. 
... A benção minha Nossa Senhora da Assunção!
-É Pena que este ano não posso te visitar lá na próxima semana!... mas p'ro ano eu vou cá “boltar”  se Deus quisér.  
(Nota do Autor; Este texto foi Extraído do Meu Livro “OS GAMBUZINOS” - uma crônica de 2006 em alusão aos diversos confábulos hiláricos e não menos sarcásticos que tantes vezes vivemos no mundo a Emigração... na ilusão de voltarmos às origens e... tristemente notamos que tudo mudou. )

 
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 09/09/2018
Alterado em 09/09/2018

Música: O Cacilheiro - Eugenia Lima

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