Cada poeta é um Mundo//Cada Leitor é mais um visitante. A nossa passagem pela vida é apenas uma fase Mutante. (Silvino Dos Santos Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal/Brasil desde 1979)
Silvino Potêncio - Emigrante Transmontano em Natal
Escrevemos hoje as nossas alegrias para aliviar as dores de um passado já distante!(SilvinoPotêncio)
Textos
Axim Ná Pode Sêri!...

De: Silvino Potêncio  “ Axim ná pode sêri!... cumpádi! “
Transcrevemos mensagem recebida do Professor Dr. João DeFreitas,... a qual contestamos aqui em baixo (in fine) ...
A liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades, isto é extremamente profundo. - O escôpo da Alma Lusa,( conforme expressa a intenção do promotor do grupo), é a fecunda "troca de idéias,conhecimentos, e tudo o que possa promover um convívio agradável entre as comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo". - As poucas coisas proibidas aqui nesta página: escrever noutras línguas, que não seja o português!...e ser "mal-educado ou inconveniente".
Dentre as profundas transformações deste século, a Internet é o mais espetacular avanço da sociedade.
- Isto, entretanto,não muda os princípios éticos tradicionais. As regras são válidas em todo o mundo e estabelecem um padrão de cortesia
para a correspondência electrônica.
- Não se deve confundir "liberdade de expressão" com renúncia de limites éticos, pois daí vai-se ao niilismo.
Se o uso de princípios comezinhos de ética e respeito às idiossincrasias alheias são baboseiras e puritanismo, então eu sou um desses puritanos e babosos da lingua de todos nós, do que, aliás, me orgulho!!!. - Talvez seja eu um desses puritanos e babosos da Alma Lusa.
- Aliás, só o facto de acusar a existência entre confrades de puritanos e babosos, em tom jocoso, já se está a exercer a censura. OK?!...
Bom fim de semana a todos.
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Extraída do meu Livro “Estórias de Um Caixeiro Viajante” – ainda em formatação, vos deixo aqui pelo “mote” acima levantado, a minha mensagem escrita de memória em 2005...
>> A primeira mensagem que abri esta manhã foi esta excelente análise do sempre presente, coerente, transigente, omnipresente Professor e meu particular Amigo João DeFreitas.
Concordo em género numero e grau, com a posição dele ( e vale lembrar que não estão aqui implicitas nenhum tipo de baboseiras da sintaxe ou da fonética e muito menos ainda, de qualquer tipo de firulas da língua que nos governa a todos que a falamos e escrevemos em português corrente).
Eu, por exemplo, já havia recebido este mesmo texto de um Amigo meu de longa data em Portugal, que também foi “retornado”, que também foi estudante, que tal como eu não exibe qualquer canudo universitário, mas observa a vida tal qual ela é!... ao longo dos muitos anos de convivência, e... no entanto, não quiz comentar aqui o absurdo da questão de acusar um povo pela simples expressão de raiva individual de cada um!... geralmente expressa tarde e a más horas!
Aqueles que, de alguma forma, já leram algo a respeito da minha procedência emigrante juvenil, da minha origem "matarroana"... e conhecem o Burgo Alfacinha, eles sabem muito bem que um dos marcos da minha existência errante, Emigrante, porém jamais “retirante”, ela começou no batente da escada da Estação de Santa Apolónia.
Se 40 anos atrás ali chorei as "pitanguinhas" da minha existência, recentemente ali paguei um mico!... ou melhor dizendo,  passei vergonha pessoal na companhia de Amigo meu de outras paragens, outras culturas, outros costumes!  Os de um Brasileiro nato e Natalense, em primeira viagem às Terras do Recto Ângulo Ibérico - e penso que a maioria dos leitores deste portal saiba a aplicação correcta destas expressões idiomáticas, já que estamos em depuração e puritanismo da língua, perante a simplicidade do tratamento do taberneiro do outro lado da rua... ou se preferirem... usemos os termos mais atualizados do outro lado das “grandes águas” Atlânticas: ... o bodegueiro da esquina.
Ora bem!,... estava em viagem de negócios pela Feira do Alimento em Lisboa quando decidimos tentar a sorte com um possivel comprador no Porto e por isso fomos pegar o "Alfa" em Santa Apolônia;  
... Entrei eu, acompanhado do meu Amigo Engenheiro Otto, na época administrador de uma fábrica de biscoitos, na taberna ao lado da Estação de Santa Apolônia, que tão amargas lembranças me traz, e colocámos a bagagem de mão na cadeira que sobrava ao lado de cada um. Isto feito, para nos sentarmos na exígua mesa e pedirmos uma refeição rápida... enquanto não chegava a hora de entrarmos no "Alfa" com destino ao Puorto!...
Eu ainda nem tinha soltado a alça da minha sacola quando o dono atrás do balcão,... com aquele jeito característico do Galego em Lisboa e ou talvez de gente do Além Tejo?!... não sei bem. Era apenas um  “cumerciante” de longa data na capital, rato de cais do Sodré para pechinchar verduras e hortaliças em fase de pré-podridão, ele falou em voz alta para quem quisésse ouvir...
- Axim ná pode sêri cumpade!... e sem se dirigir a ninguém, mas olhando para nós!
- Aatão i ós outros?,... undé que se vão assentar, hein???
O meu companheiro de viagem olhou para mim, e depois para o balcão onde o taberneiro continuava a disparatar em direção à nossa mesa, enquanto passava pratos e copos cheios por cima das bomboniéres ao garçon, que servia os clientes, no minguado espaço de sala de "casa de pasto"... (1)
- é um bitoque p'ra mesa seis! ... sai uma superbock p'ra mesa quatro.
Ò Edson... um sanduiche de mortadela p'rá oito...
E por sobre este arrazoado de ordens, em surdina, lá se ouvia pela terceira ou quarta vez:
- Axim ná pode sêri!...
- Aatão?... i ós outros undé que vão s'assentar, hein???
Voltei-me para o Eng Otto, que... sendo Brasileiro, em primeira viagem à “santa terrinha” se divertia p'ra valer mas, no fundo, no fundo,... ele é que não estava a perceber patavina e disse-lhe mais ou menos no mesmo tom...
Doutor!... isto axim ná pode cer, karago!
--- Esta merda de bodega cheia de moscas nos pratos, nos restos de cumida, nos copos mal lavados, nas formigas debaixo do balcão, e nas unhas pretas dos empregados de bar, é uma boa merda e nóis num cumemos aki...
- Axim ná pode ser!... Karago!, e... de soslaio, olhei na direção do balcão e falei um pouco mais alto:
Voismecê tem razão: - Axim ná pode sêre!...
- Acto efeito, ele Otto entendeu a indirecta... pegou a alça da mala dele, mais a pasta de mão, e levantou-se!
- eu já estava na soleira da porta a olhar para o dono do bar e, juntos, saímos porta fora,... a rir entre nós mesmos.
Ná, ná pode cer ná xeñori!... cumpádi... repetia ele a tentar absorver o palreio do taberneiro.
Nas nossas costas o "garçon" que era Brasileiro, ainda chutou:
- Doutôr, ... o sanduiche já tá pronto.
- Kara!... diz aí ao teu patrão que eu gosto mesmo é de Alheiras de Mirandela...
- nós bamos aki p'ro bezinho do lado, c’ias tem lá milhores kestas, caragooo! ... dito isto e fumos pra Taberna ali ao lado!...

(1) “casa de pasto” bem honrada, humilde, limpa, asseada... e séria!, ela serve as mais elementares refeições da verdadeira cu zinha portuguesa.
- O que não era o caso aqui, porque lá dentro o dono era um autêntico "animal" que saiu do deserto para vir "pastar" na capital.
Silvino Potêncio - Abril/2005
in : "Estórias de Um Caixeiro Viajante"
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 07/10/2010
Alterado em 09/06/2015
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